João Antônio em arquivos: correspondência, recortes e manuscritos
O evento propõe a reflexão crítica sobre
os modos de produção, circulação e recepção da obra de João Antônio, a partir
da exploração de seu acervo pessoal, atualmente depositado no
CEDAP/UNESP/ASSIS. Estruturado em torno de três núcleos temáticos — correspondência,
recortes e manuscritos —, o encontro busca delinear as múltiplas dimensões da
construção autoral, da articulação com o mercado editorial e da inscrição do
escritor nos circuitos literários e jornalísticos brasileiros.
As cartas trocadas com escritores,
editores, amigos e críticos revelam os vínculos afetivos e profissionais de
João Antônio, e configuram um espaço de elaboração estética e metacrítica, que
dialoga com sua produção literária e com as tensões do campo intelectual de seu
tempo. A análise desse corpus epistolar permite uma abordagem crítica informada
pela epistolografia e pela crítica genética, iluminando aspectos da poética e
da autoimagem autoral.
O conjunto de recortes de jornais e
revistas, meticulosamente reunido e classificado pelo próprio escritor, oferece
subsídios para o estudo de sua recepção crítica, das formas de legitimação
cultural e das estratégias de visibilidade midiática. Trata-se de um material
que evidencia a consciência de João Antônio sobre a importância da imprensa na
consolidação de sua trajetória.
Os manuscritos, muitos dos quais ainda
inéditos, abrem caminho para a investigação dos processos compositivos e das
opções formais do autor. A análise genética desses documentos permite
reconstruir percursos textuais e examinar os gestos de escrita que configuram
sua literatura.
Ao privilegiar uma abordagem interseccional entre crítica genética, arquivologia literária e teoria da criação, o evento se inscreve no esforço de valorização dos arquivos de escritores como campo epistêmico e metodológico, e oferece subsídios para o aprofundamento dos estudos sobre João Antônio no panorama da literatura brasileira contemporânea.
22/10
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09h00– 10h30 |
Tema: Imprensa e Literatura Palestra de abertura: Prof. Dr. Antônio Hohlfeldt (FABICO/UFRGS - Porto Alegre) A revolução do texto é o corpo-a-corpo com a vida A principal característica do texto de João Antônio é o requinte. Não no sentido da adjetivação, mas no sentido de cuidadosa pesquisa de linguagem, recriando registros de falas, diversificando modos de desenvolver suas narrativas, preocupando-se em magnificar a carga semântica das palavras escolhidas. O texto de João Antônio é sempre resultado de uma pesquisa e de uma invenção. Para esta reflexão, escolheu-se três textos jornalísticos de João Antônio, mas que são, ao mesmo tempo, textos literariamente expressivos. Começa-se com “Olá, professor, há quanto tempo”, entrevista por ele realizada cm o antropólogo Darcy Ribeiro, logo que este retornara ao Brasil para realizar a cirurgia de câncer que acabaria salvando sua vida. Depois, “´Testemunha da Cidade de Deus”, em que o texto aparece dividido em três blocos profundamente significativos, com destaque para o último, “Revista dos jornais”, graças à cuidadosa escolha dos verbos utilizados para a narrativa. Por fim, a reportagem sobre o clássico jogo de futebol mineiro, Atlético e Cruzeiro, “É uma revolução!” A reflexão a respeito destes três textos vai partir de um outro trabalho, este teórico, “Corpo-a-corpo com a vida”. Os volumes utilizados são Casa de loucos (Rio de Janeiro, Civilização Brasileira. 1976) e Malhação do Judas carioca (São Paulo, Clube do Livro. 1987). |
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19h30 – 22h30 |
Mesa 1 – João Antônio a partir de sua
correspondência: o escritor e o homem Prof. Ms. José Armando Pereira da Silva – SP/SP João Antônio, amigo meu. O que pretendo trazer ao simpósio sobre
o escritor João Antônio é um depoimento pessoal, que resulta da convivência
que tivemos e da correspondência que mantivemos, quando em diferentes
cidades. Meu primeiro contato com ele foi no início dos anos 1960, e com ele
me encontrava frequentemente nos seus últimos anos no Rio de Janeiro. Essa
convivência me ensejou conhecer de perto o homem e o autor, que era pródigo
em falar de sua obra e de seus projetos, fosse pessoalmente ou através de sua
correspondência. Essa última se encontra hoje sob a guarda da Unesp, em
Assis, e terei satisfação de transmitir alguns trechos da mesma, reveladores
da vida e obra desse autor. Prof. Dr. Julio Cezar Bastoni da Silva – UFC/Ceará João Antônio, leitor de Carolina Maria de Jesus: um diálogo nas margens Este trabalho visa apresentar possíveis
aproximações entre a ficção de João Antônio e a literatura de Carolina Maria
de Jesus, a partir de uma breve apreciação que o escritor paulista remete, em
correspondência, a Ilka Brunhilde Laurito, sobre Quarto de despejo (1960),
então recém-publicado. A leitura da carta permite entrever aspectos que
figurariam na escrita de João Antônio, em especial certa postura ética (e
literária) que pressuponha o contato participante com a vida popular e que
não se confunda, meramente, com o teor documentário: trata-se de pesquisar
formas pelas quais a figuração da pobreza não redunde em interesse pelo
exótico ou em postura paternalista, sem degenerar igualmente em uma
exploração reificadora da sensibilidade e da experiência popular, por meio da
objetificação do sujeito enquanto vítima inerme da violência e da miséria ou
ator inconsciente da anomia social. Profa. Dra. Telma Maciel da Silva – UEL/Londrina A arraia miúda da publicidade vista a partir da correspondência de João Antônio: o caso Irmãos Raccatti LTDA Em 1963, ainda antes da publicação de seu livro de estreia, João Antônio vivia do trabalho publicitário que realizava na Agência Petinatti. Nesse período, são muitas as referências que o escritor faz ao ofício, em geral, com reclamações sobre as péssimas condições de trabalho e, principalmente, sobre o baixo ordenado. Em dado momento, a revolta se converte em ação trabalhista e em um projeto de romance, que se chamaria “Irmãos Raccatti LTDA”. O processo vai adiante; o romance, não. Mas dele ficaram anotações valiosas sobre as técnicas de criação do escritor. O presente trabalho tem como intuito, portanto, analisar as cartas desse período, tendo como foco principal aquela em que João Antônio descreve as técnicas de escrita que pretendia utilizar. |
Local: Anfiteatro do Cedap
Público-alvo: Alunos da graduação, pós-graduação, docentes,
funcionários, público externo e interno e interessados em assistir as palestrs
Coordenador: Profa. Dra. Sílvia Maria Azevedo
Apoio e realização: CNPq - Direção e Vice-Direção
Comissão Organizadora:
Profa. Dra. Sílvia Maria Azevedo – UNESP/Assis
Profa. Dra. Clara Ávila Ornellas – IFSP/São Paulo
Prof. Dr. Julio Cezar Bastoni da Silva – UFC/Ceará
Profa. Dra. Telma Maciel da
Silva – UEL/Londrina
Prof. Dr. Wagner Coriolano de Abreu – UERJ/Rio de
Janeiro